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Artigo: O que pensar quando a máquina pensa - Por: Rainey Marinho

Publicado em 26/02/2026
Notícia
Vou começar pelo que me incomoda. Este texto foi escrito com a ajuda de uma inteligência artificial. Registro isso de saída porque seria desonesto não registrar — e registro, convém dizer, é o que faço da vida há trinta e sete anos. No meu cartório, todo dia alguém me entrega um papel e me pede que eu diga se aquilo vale. Se tem forma, se tem substância, se pode produzir efeitos no mundo. Pois bem: esse texto passou pelo mesmo crivo. A máquina ajudou. Mas quem qualificou fui eu. 

Quem escreve sobre o impacto dessas ferramentas no pensamento humano e finge que não as usa está mentindo ou está atrasado. Não existe lado de fora. 

Há uma inquietação que escuto cada vez mais, de gente jovem principalmente, mas não só: o que acontece com a cabeça de uma pessoa quando o esforço de pensar vira opcional? Não é conversa sobre emprego. Não é conversa sobre produtividade. É algo que mexe com a gente por dentro — a sensação de que uma capacidade essencial pode atrofiar por desuso, como músculo que ninguém mais solicita. 

A preocupação é séria. Mas merece ser tratada com o mesmo rigor que aplicamos a qualquer título que chega ao balcão: examinar a forma, verificar a substância, desconfiar do que parece óbvio. E boa parte do debate sobre cognição e tecnologia opera justamente pelo que eu recusaria num cartório — afirmação sem lastro, emoção sem fundamento, conclusão que antecede o exame. 

Já se sabe, há mais de uma década, que o cérebro economiza. Quando sabe que pode consultar uma informação depois, diminui o esforço de memorizá-la. O dado está guardado lá fora — para que guardar aqui dentro? Isso é real. 

O erro vem depois: concluir que, se a memória de fatos encolhe, a capacidade de pensar encolhe junto. Eu não decoro o telefone de ninguém. Não sei de cor o número de um único provimento do CNJ. E ainda assim passo o dia inteiro fazendo o que nenhuma máquina faz por mim: decidindo. Julgando. Pesando. Duvidando. Memória e raciocínio são coisas diferentes. Confundir uma com a outra é o primeiro erro do debate — e o mais comum. 

O maior obstáculo a uma conversa séria sobre o assunto é tratar "pensar" como coisa única. Não é. 

Calcular é pensar. Julgar é pensar. Criar é pensar. Duvidar é pensar. E cada uma dessas operações responde de um jeito diferente à presença de uma máquina que também calcula, redige e organiza. 

Para cálculos, buscas e sínteses de dados, delegar é bom senso. Ninguém chora porque o engenheiro largou a régua de cálculo. A calculadora o liberou para pensar no projeto, não na aritmética. Nenhuma tragédia aí.  

O território perigoso é outro. 

A capacidade de perceber que um problema existe — não de resolver um já formulado, mas de formulá-lo — depende de uma atenção lenta que só se constrói pela prática. No meu ofício, aprendi isso a duro custo: o título mais perigoso não é o que tem erro evidente. É o que parece perfeito. É o que passa batido justamente porque ninguém desconfiou. A qualificação registral vive disso — desse instinto treinado de perguntar "e se não for o que parece?" 

O julgamento em situações ambíguas exige acúmulo de decisões próprias, com consequências próprias. A máquina não erra por convicção nem acerta por coragem. Ela processa. Quem decide sou eu — e é essa decisão, com seu peso e seu risco, que nenhum algoritmo vai carregar no meu lugar. 

A criatividade genuína — não a recombinação competente do que já existe, mas a ruptura que inaugura — parece nascer de uma tensão interna que só aparece quando a mente se debate com o desconhecido sem saída fácil. Manoel de Barros não escreveu o que escreveu porque tinha acesso a um banco de dados de poesia. Escreveu porque ficou tempo suficiente no silêncio do Pantanal, olhando para o cisco, para a lesma, para o nada — até que o nada virou linguagem. 

Essas capacidades não se terceirizam. Ou se exercitam, ou se perdem. 

A pergunta que importa não é "a máquina substitui o pensamento?" A resposta óbvia é: qual pensamento? A pergunta que importa é: quais formas de cognição ela substitui, quais amplia, e quais nem sequer alcança? 

Esse enquadramento muda tudo. 

Toda grande ferramenta cognitiva da história produziu o mesmo pânico. Toda. Sócrates avisou que a escrita ia destruir a memória. Estava parcialmente certo — a escrita reduziu a necessidade de decorar textos longos. O que ele não viu é que a mesma ferramenta liberaria a mente para coisas que a oralidade não permitia: análise comparada, argumentação longa, revisão crítica do próprio raciocínio. Perdemos algo. Ganhamos mais. 

Gutenberg foi acusado de vulgarizar o saber. A calculadora ia acabar com a competência matemática. A internet seria o túmulo da leitura profunda. Em todos os casos, houve transformações reais e perdas genuínas. Mas o colapso — a humanidade reduzida a autômatos — nunca veio. 

Eu mesmo vivi isso no microcosmo do cartório. Quando chegou a informatização, nos anos noventa, houve quem dissesse que o registrador ia virar apertador de botão. Que a fé pública perdia o sentido se o livro era digital. Que o selo eletrônico era o fim da confiança. Trinta anos depois, os registradores que souberam usar a tecnologia são mais rigorosos, não menos. A ferramenta não substituiu o juízo — ampliou o alcance dele. 

Isso não garante que desta vez será igual. As ferramentas atuais operam sobre linguagem natural — que é o meio em que o pensamento se organiza. Imitam com fidelidade perturbadora a produção humana. E não exigem nenhuma competência técnica para serem usadas. São diferenças que importam. Mas quem diz que o desfecho será catastrófico tem um ônus: mostrar por que o padrão histórico não se repete. Não basta sentir que "dessa vez é diferente". É preciso demonstrar. Essa demonstração ainda não apareceu. 

Honestidade obriga a olhar para os dois lados. 

Do lado do risco, os sinais são concretos. Professores percebem queda na capacidade de escrita autônoma. Profissionais de áreas criativas descrevem a tentação de aceitar o primeiro rascunho da máquina sem exame. Há uma economia de esforço que, se habitual e irrefletida, enfraquece o que só sobrevive pelo exercício. 

Do lado da potência, os sinais são igualmente concretos. No meu dia a dia — e falo do que vivo, não do que li — uso a máquina como interlocutora. Ela me apresenta um rascunho de parecer; eu leio com a mesma desconfiança com que leio qualquer título apresentado a registro. Aceito o que presta, corto o que não presta, reescrevo o que ficou com cara de máquina. O resultado, muitas vezes, é mais rigoroso do que seria sem ela — porque o ponto de partida já é uma estrutura organizada, não a página em branco intimidadora. 

A diferença entre os dois cenários não está na ferramenta. Está em quem a usa. E essa constatação desloca o problema para onde ele sempre deveria ter estado: o campo da formação, da educação, da cultura. 

Deixo aqui, então, o que penso que vale a pena proteger. 

Vale proteger a capacidade de formular problemas — não apenas de resolvê-los. A máquina responde com competência. Mas a pergunta precisa vir de algum lugar, e esse lugar é uma mente que observa o mundo, nota tensões, identifica lacunas. Isso não se delega. 

Vale proteger o julgamento em terreno incerto. A vida real quase nunca apresenta problemas com solução clara. A maior parte das decisões que importam envolve informação incompleta, valores em conflito, consequências imprevisíveis. A máquina organiza cenários. Mas decidir — assumir a responsabilidade por uma escolha que pode estar errada — isso é nosso. É humano. É intransferível. 

Vale proteger o silêncio produtivo. Aquele tempo em que a mente trabalha sem estímulo, sem pergunta direcionada, sem expectativa de resultado. Drummond não escrevia no barulho. As conexões mais originais surgem quando o cérebro vagueia, não quando está respondendo a prompts. Uma cultura que preenche cada lacuna de incerteza com uma consulta automática pode estar eliminando o solo de onde brotam as ideias que ainda não têm nome. 

E vale proteger a dúvida como hábito. Não a dúvida que paralisa — a que pergunta "como sei que isso é verdade?" antes de agir. Venha a resposta de quem vier. 
O espectro vai da alavanca ao guindaste. No extremo da alavanca: você tem uma ideia, a ferramenta ajuda a testá-la, a refiná-la, a encontrar falhas. O esforço é seu; ela o potencializa. No extremo do guindaste: você não tem ideia, pede que a máquina gere uma, aceita sem exame, segue adiante. O esforço desaparece. 

A maior parte dos usos reais cai em algum ponto entre os dois. E é nesse território intermediário — no varejo do dia a dia, na decisão de cada manhã — que se define se a mente está sendo fortalecida ou amolecida. 

O risco cognitivo não é problema tecnológico. É problema de formação. De caráter, se me permitem a palavra fora de moda. Nenhuma máquina decide por nós quanto esforço faremos. Nós decidimos. E é essa decisão — repetida milhares de vezes, por milhões de pessoas — que vai dizer se a coisa toda terá sido a ferramenta que ampliou a mente humana ou a muleta que a atrofiou. 
Não acredito que estejamos à beira de um colapso. Tampouco acredito que a coisa seja inofensiva. 

O que acredito — com base no que vejo, no que pratico, no que a evidência sustenta — é que vivemos uma redistribuição do esforço cognitivo sem precedente. E que o resultado depende de escolhas que ainda não fizemos. 

O medo é legítimo. Não porque a máquina seja demais, mas porque a tentação da facilidade é real. Porque é mais fácil aceitar a resposta pronta do que formular a pergunta própria. Porque o atalho, repetido mil vezes, vira o único caminho que se conhece. 

Mas a espécie humana tem uma capacidade notável de absorver ferramentas poderosas sem se destruir com elas — desde que mantenha, em cada geração, a consciência de que certas capacidades só existem enquanto são exercidas. 

A questão não é se a máquina vai nos impedir de pensar. Nenhuma máquina tem esse poder. A questão é se nós escolheremos continuar pensando — com o esforço, a lentidão e o desconforto que o pensamento genuíno exige — mesmo quando houver, a um clique de distância, algo disposto a pensar por nós. 
Isso é escolha. Individual e coletiva. E precisa ser feita com lucidez, não com pânico. 

Este texto foi escrito com o auxílio de uma inteligência artificial — e com a decisão deliberada de que cada argumento, cada julgamento e cada palavra final fossem meus. Se isso conta como pensar, é exatamente a pergunta que importa.
 

Artigo: Por Rainye Marinho
Data: 26/02/2026